É trinta, faço hoje e talvez por esse fato de me tornar uma mulher de trinta que me sinto mais confortável pra escrever sobre minha vida olhando pra ela sem julgamento, apenas olhando pra ela e me compreendendo cada vez mais.
A adulta de trinta hoje, consegue falar das mulheres jovens, adolescentes e meninas que já foi nas vidas passadas com a pureza de cada idade que já tive. Da pra viver um dia de hoje como se fosse uma vida inteira e chamar o dia de ontem de vida passada.
E começando a falar das minhas vidas passadas, voltado a infância, gostava mesmo de me esfregar com um primo quando era criança.
Começou quando tinha cerca de 5 anos, pelo menos é o que minha memória me remete. Me lembro de estar junto com um meio-primo no meio de uma roda de meninos (irmãos e primos, se não me engano estávamos em seis) com os shorts abaixado. Enquanto alguns me tocavam outros diziam o que ele e eu deveríamos fazer. "Pega aqui", "passa ali", "esfrega aqui". Prazeroso e assustador. Todos na faixa etária de 4 a 8 anos experimentando "coisa de adulto" escondido dos adultos. E essa "brincadeira", virou quase rotina.
Hoje não nego, posso também, ter gostado mesmo de algumas vezes de brincadeiras assim com meus irmãos, mas a maioria das lembranças não são de mim me divertindo naquele "fica assim" que me diziam. Me sentia menos violentada quando o primo que eu gostava que é um ano mais novo, tava junto. Ele sempre era mais carinhoso e não era meu irmão. Talvez tenha sido a minha primeira paixão de criança.
O principal motivo de ter demorado tanto tempo pra falar das vezes que não gostei, me dei conta essa semana depois de mais uma conversa chorosa sobre o assunto com uma amiga que moro. Ante-ontem, pra ser mais exata.
O medo de ficar sem sentir aquele prazer com esse primo, me influenciou a não denunciar aos adultos todas vezes que não queria estar lá com os outros meninos. Sim, denunciar, porque quando sua vontade não é respeitado a violência acontece né.
Não tenho ideia de quantos adultos na minha época de criança perceberam o que rolava, sei que nunca fizeram ou comentaram nada pra mim pelo menos. Nunca conversei com todes pra saber se sabiam e nem sei se vai rolar essa conversa, mas me lembro de, nos encontro de família ficar mais calada em algum momento olhando para eles interagindo e pensando quantos daqueles adultos ali quando criança também não se sentiram como eu tava me sentindo, confusa entre o prazer e a dor. Entre contar e não contar. Inúmeras vezes pensei "isso que acontece comigo deve ter acontecido com minhas tias, primas e até minha mãe tbm"... Queria buscar uma justificativa para acreditar que tava tudo bem não gostar a maioria das vezes daqueles esfrega esfrega nua. Que tava tudo bem chorar de raiva em silêncio antes de dormir porque naquele dia tinha acontecido de novo sem a minha vontade. E que tava tudo bem logo depois do choro de algumas noites, me sentir mais aliviada e até feliz porque sabia que ia encontrar o primo no dia seguinte.
Gostava mesmo de me esfregar com meu primo e me lembro de poucos momento de prazer bem bons que tive com ele dos meus 5 aos 10, por ai. Gostava mesmo de me esfregar no meu travesseiro, gostava mesmo de tocar meu corpo e sentir prazer. Mas ter sido estuprada quando criança por outras crianças e não ter conversado com ninguém na época me fez ser uma adulta facilmente estrupada.
Mesmo não contando abertamente sobre para nenhum adulto, meu corpo dava sinais de que algo estava acontecendo. Comecei ter cólicas menstruais por volta dos 7/8 anos, menstruei por volta dos 10 e sofri com cólicas fortes, daquelas de travas as pernas até os meus 24 anos. Foi só quando comecei a falar dos abusos que as cólicas começaram a diminuir e chego hoje aos 30 muito feliz por poder dizer "Menstruei sem sentir dor nenhuma". A gente se cura.
Lembro que quando tive amigas vizinhas, lá por volta dos meus 9/10 anos, num daqueles cadernos de stop no item "Me faça uma pergunta?", escrevi no caderno de uma delas"Você gostaria de ser estuprada?". A reação não foi outra a não ser aversão, a amiguinha na época, junto com outras me rechaçaram "credo Jussara, que coisa horrível", fiquei me sentindo mal por muito tempo. Hoje sei que foi só mais uma tentativa de conversar com elas. De saber mesmo se o que acontecia comigo, também acontecia com elas. No fundo, queria que alguém me contasse que podia dizer não pro não-prazer e sim para todo o prazer que pudesse ter sozinha ou com aquele primo.
O primeiro homem adulto que tentei transar depois de tudo, tinha o mesmo nome de um dos meninos, era fisicamente parecido com ele adulto e foi tão violento e horrível fisicamente pra mim naquela tentativa de transar, de sentir prazer (tinha 21), quanto na última vez que sofri violência sexual em casa aos 10. Lembrar disso na análise aos 24 (primeira vez que falei em voz alta sobre tudo) foi quase um colapso.
Lembrar de todos os homens que deitaram sobre meu corpo e não pararam ao ver minha expressão de dor, não pararam quando pedi pra parar, não pararam quando permaneci imóvel foi ver neles os meninos que na minha infância, não pararam também. Foi ver minha infância ainda se repetindo. Foi também compreender que precisava redescobrir meu prazer sexual e acabar com a ideia de que "sexo pra mulher era dor". E foi sobretudo o momento que me lembrei porque os abusos pararam, tinha dito não, tinha dito chega.
Sei que ainda estou reconhecendo o que ficou de trauma da infância e da vida adulta e redescobrindo meu prazer, tentando ter momentos tão prazerosos hoje, quanto os poucos bons momentos que tive na infância. Tô tentando voltar a ser aquela criança que se permitia sentir prazer na inocência de descobrir o toque no corpo do outro e no meu.
Pouco conversamos sobre crianças terem prazer e precisamos falar cada vez mais sobre ele dentro de nossas famílias. Reconhecer que se não dialogarmos com ela, elas se violentam escondidas. É normal sentir prazer quando criança, afinal é só mais uma pessoa de pele, osso e múltiplas sensações. O que não pode ser normal é permitir cria-las nessa lógica de medo de falar sobre si mesmas e sobre seus corpos. Que cada vez mais nós adultos, possamos contar para crianças que elas sentem prazer sim e que ta tudo bem sentir, mas que sobre tudo elas devem denunciar quando não ta legal.
Começando 30 abraçando meus traumas e a mim mesma.
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