Passei uma manhã trocando ideia sobre violência contra mulher e sobre a Marcha das Vadias com adolescentes do nono ano do Colégio Estadual. Prof. Teobaldo Leonardo Kletemberg, que fica no bairro Sítio Cercado em Curitiba. Foram 3 turmas com cerca de 70 alunas e alunos cada. Foram cerca de 210 alunos e alunas na manhã toda.
A Marcha das Vadias de Curitiba sempre que pode vai a escolas fazer fala sobre a Marcha e sobre as bandeiras que a marcha levanta e luta. É a segunda vez que voltamos nesse colégio do Sítio Cercado e é a segunda vez que tenho a oportunidade de ir junto.
Dessa vez o convite não foi de uma professora que participou da marcha, ou que sabia que a marcha se fazia presente em colégios. Foi um convite de um professor de inglês, que após assistir uma capacitação para o corpo docente sobre LGBTfobia com uma das organizadoras, pediu que ela voltasse lá pra falar sobre "violência contra as mulheres", já que ele estava trabalhando musicas em inglês com essa temática.
Dessa vez o convite não foi de uma professora que participou da marcha, ou que sabia que a marcha se fazia presente em colégios. Foi um convite de um professor de inglês, que após assistir uma capacitação para o corpo docente sobre LGBTfobia com uma das organizadoras, pediu que ela voltasse lá pra falar sobre "violência contra as mulheres", já que ele estava trabalhando musicas em inglês com essa temática.
Sempre que participo de espaços assim, que tenho oportunidade de falar sobre violência contra mulheres, sobre culpabilização da vitima, sobre como nossa cultura machista funciona de forma simples e direta com adolescentes, falo sobre homens também sofrerem abusos. Hoje não foi diferente, também falei.
Mas hoje a ultima turma, um grupo de meninos riu e fez piada com um outro menino, quando comentei que homens/meninos também são estuprados. Piadas com estupro me deixam enfurecida, me subiu a raiva na hora e chamei a atenção deles sobre o riso deles, sobre o quão grave era rir de violência, ainda mais sobre violência como estupro. O quanto a risada deles naturalizava essas violências, sobre o quão ridículo é rir disso principalmente no meio masculino. Do quanto eles deveriam se importar não só em relação a acabar com a violência contra mulheres, mas acabar com a violência entre eles. Que eles não são super-hérois, que eles não devem manter a qualquer custa a ideia estupida de "machão", que eles não são superiores a nenhuma mulher e que nem deveriam se sentir. Que precisavam falar entre si sobre as violência que os atingem e fazer algo além de piadas para que essas violências acabem. Falei em um tom de voz alto e firme, tive a impressão de estar gritando, mas me disseram depois que não. Por vezes durante a minha fala tive vontade de chorar. Compartilhei com eles a minha história e falei que foi o riso dos outros, as piadas de estupro que nunca me deixaram contar, que sempre me deixaram com vergonha e me sentindo culpada. Compartilhei também sobre meus amigos homens que tiveram a coragem de contar pra mim o que aconteceu com eles, porque sabiam que não os julgaria. Enfim, tentei mostrar a importância de não naturalizarmos essas violências através de nosso riso. Essas e outras, como rir de pessoas negras, gordas, LGBTs, com necessidades especificas e etc. Me acalmei e seguimos com a apresentação...
O vice-diretor pediu a fala o final e chamou a atenção dos meninos de uma forma brilhante. Começou dizendo o que a palestra falava muito mais do que sobre vítimas, falava sobre os causadores das violências e chamou a atenção dos meninos que ali estavam e não prestaram muita atenção, fizeram piadas e/ou pouco caso no inicio. Foi a primeira vez que vi ao vivo, um homem chamando a atenção de meninos sobre o comportamento violento deles. E foi gratificante presenciar isso depois de ouvir piadas de estupro.
Chego na faculdade pra estudar e leio "Menino de nove anos sofre estupro coletivo dentro da escola". Não consigo estudar, chorei. Senti aquela dor no peito, aquele sentimento de impotência que toda vitima sente. Revivi com esse menino as minhas dores.
Foram crianças da mesma idade que o estupraram. Foram crianças pouco mais velhas que eu, que me estupraram. Vivemos em uma sociedade onde não são apenas adultos que cometem crime. Que cometem o crime de não respeitar o corpo alheio. Vivemos em uma sociedade onde as crianças aprendem desde cedo como abusar, violentar, machucar e dizer "Não conta", "Fica quieto", "Foi sua culpa", "viadinho"...
Vivemos em uma sociedade que precisa urgentemente debater gênero nas escolas e debater gênero, é principalmente falar sobre violências de gênero. É falar que meninos de 9 anos não podem estuprar outros meninos de 9 anos, porque isso não é divertido, não é legal e Não pode nunca acontecer. Que meninos nem meninas podem abusar de ninguém. Que o corpo alheio deve ser respeitado.
Qual é o medo de se debater sobre violência dentro das escolas? De que elas acabem?
Vemos um esforço gigantesco em frear os debates sobre violências dentro das escolas, mas se não falarmos, se não entrarmos mesmo que de forma "clandestina", como vamos mudar essa realidade?
De um lado triste, do outro feliz. Triste pelas vitimas diárias de nossa educação machista. E feliz pelas pessoas que se disponibilizam a militar/ser ativista como dá, como pode e que se juntam como dá também. Se não fosse a disposição de professores, professoras, alunos e alunas em debater violência de gênero nas escolas, a marcha das vadias não teria entrado em nenhuma.
Não posso afirmar que não vá acontecer estupros dentro das escolas que passamos, mas posso dizer que aqueles alunos, alunas, professores e professoras que conversamos, hoje sabem que a culpa nunca é da vítima. Que podem e devem denunciar casos de violência e mudar suas posturas para que essas violências acabem.
Eu, vitima de violência sexual no ambiente domestico queria ter tido acesso a uma palestra dessas que faço hoje quando tinha 5/7/8/9/10/11/12/13 anos. Queria que tivessem me falado sobre cultura do estupro, sobre dados de violência e sobre ser possível destruir uma cultura violenta, construindo uma nova cultura. Queria que tivessem debatido gênero.
Precisamos falar sobre violência, precisamos urgentemente falar sobre violência com crianças e adolescentes.
Chego na faculdade pra estudar e leio "Menino de nove anos sofre estupro coletivo dentro da escola". Não consigo estudar, chorei. Senti aquela dor no peito, aquele sentimento de impotência que toda vitima sente. Revivi com esse menino as minhas dores.
Foram crianças da mesma idade que o estupraram. Foram crianças pouco mais velhas que eu, que me estupraram. Vivemos em uma sociedade onde não são apenas adultos que cometem crime. Que cometem o crime de não respeitar o corpo alheio. Vivemos em uma sociedade onde as crianças aprendem desde cedo como abusar, violentar, machucar e dizer "Não conta", "Fica quieto", "Foi sua culpa", "viadinho"...
Vivemos em uma sociedade que precisa urgentemente debater gênero nas escolas e debater gênero, é principalmente falar sobre violências de gênero. É falar que meninos de 9 anos não podem estuprar outros meninos de 9 anos, porque isso não é divertido, não é legal e Não pode nunca acontecer. Que meninos nem meninas podem abusar de ninguém. Que o corpo alheio deve ser respeitado.
Qual é o medo de se debater sobre violência dentro das escolas? De que elas acabem?
Vemos um esforço gigantesco em frear os debates sobre violências dentro das escolas, mas se não falarmos, se não entrarmos mesmo que de forma "clandestina", como vamos mudar essa realidade?
De um lado triste, do outro feliz. Triste pelas vitimas diárias de nossa educação machista. E feliz pelas pessoas que se disponibilizam a militar/ser ativista como dá, como pode e que se juntam como dá também. Se não fosse a disposição de professores, professoras, alunos e alunas em debater violência de gênero nas escolas, a marcha das vadias não teria entrado em nenhuma.
Não posso afirmar que não vá acontecer estupros dentro das escolas que passamos, mas posso dizer que aqueles alunos, alunas, professores e professoras que conversamos, hoje sabem que a culpa nunca é da vítima. Que podem e devem denunciar casos de violência e mudar suas posturas para que essas violências acabem.
Eu, vitima de violência sexual no ambiente domestico queria ter tido acesso a uma palestra dessas que faço hoje quando tinha 5/7/8/9/10/11/12/13 anos. Queria que tivessem me falado sobre cultura do estupro, sobre dados de violência e sobre ser possível destruir uma cultura violenta, construindo uma nova cultura. Queria que tivessem debatido gênero.
Precisamos falar sobre violência, precisamos urgentemente falar sobre violência com crianças e adolescentes.

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