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Por que deixei de atuar como hétero? Uma entrevista comigo mesma.

Esta é uma entrevista que fiz comigo mesma. Para me explicar e tentar explicar aos outros varias coisas sobre muitas coisas, ou praticamente tudo. Ou quem sabe, praticamente nada pra mim e pra outros.

Quando você começou neste papel de hétero? 
Sinceramente não sei, sei que foi no meio social em que estava inserida, tinha esta exigência, digamos assim. Desde pequena me falavam que eu era uma boa hétero. Que deveria interpretar este papel. Então acreditei e resolvi aceitar este papel por um tempo. Por muito tempo alias. 

Por Quanto tempo? 
24 anos. Foram 24 anos da minha vida, dedicados exclusivamente a esta carreira de hétero. 

Por que desistiu?
Não desisti completamente sabe. As vezes atuo meio que sem querer atuar como hétero pra não apanhar mesmo, tenho medo até de ser morta.

Como assim para não apanhar, ser morta?
Vou tentar explicar. Nessa nossa sociedade, ha um tipo de "exigência" que é mais uma imposição sabe!? (que não esta escrita como norma/lei porem existe), que qualquer pessoa seja uma atriz ou ator hétero, mesmo que este não seja realmente hétero. Como esta imposição é meio que geral, quando você que não é hétero é flagrado sendo você e não atuando o papel de hétero, as pessoas te agridem como forma de coerção. É tipo, impor que você volte a atuar. Se você resistir muito, ao extremo, pode ser morto. Então as vezes, dependendo dos outros atores e atrizes que estão em volta, por medo, eu volto a atuar como hétero.
Tem gente que passa a vida toda atuando, 24 horas por dia, por causa deste medo. É chato pra caramba e muito triste na verdade. 

Então você só atua como hétero quando a situação apresenta risco real a você? 
Isto!

Então qual é o seu papel hoje, na maior parte do seu tempo? 
Quanto a minha sexualidade eu não atuo mais papel nenhum. Resolvi ser eu mesma neste campo. Chega uma hora que cansa ficar fingindo ser sempre algo que não é. Ficar atuando sempre cansa, é chato. 
E também percebi que existe héteros de verdade sabe, eles são eles, não são atores. Então pensei, se eles não atuam nem um segundo da vida deles neste papel imposto, porque justo eu, devo deixar de ser eu, para agradar aqueles que não querem ver a minha vida como ela é? Porque só eu sou obrigada a ver a vida deles como ela é? Estes questionamentos me ajudaram a pedir demissão deste papel. Pena que ainda, as vezes tenho que atuar. 

Deixa eu ver se entendi. Posso pensar então, que ser você mesmo é difícil quando não se é hétero?
Bom, neste ponto tenho que reconhecer meus privilégios e não resumir as coisas assim de maneira que pode parecer tão simples. A questão não deve ser concentrada no "ser hétero", mas sim no é "ser você mesmo". 
Sou cisgenera. E existe pessoas trans* héteros também, por mais que a sociedade não faça esta leitura, pessoas trans* podem sim ter a sexualidade que quiserem ter. A vida destas pessoas, alias de qualquer pessoa trans* é muito mais difícil do que a minha. A mim são impostos alguns papeis, ser hétero é um destes. As pessoas trans* é exigido que elas neguem muito mais quem elas são, do que eu, sabe. Você pode pensar então, que é difícil ser você mesma, em uma sociedade onde é imposto muitos papeis juntos a uma unica pessoa. 
Vou exemplificar, a sociedade tem a terrível mania de impor coisas as pessoas, mesmo antes delas nascerem. Criam-se papeis e querem que todos, sem exceção os exerçam sem questionar se estão certos ou errados. É como impor a vida de uma unica pessoa como regra para todos, todos os outros individuos tem que interpretar aquela vida saca! 
Tipo assim, existe ideias/conceitos/papéis pre-impostos do que é ser mulher, então todas as pessoas que são vistas/lidas como mulher, é esperado dela, a atuação mais perfeita possível deste papel. Daquela ideia. Se a pessoa é lida como mulher, porem não segue a risca, ou digamos, grande parte desta ideia, ela sofrerá sanções, coerção por não estar seguindo o papel direito. Isto server para, homem também. 
Ai você tem uma sociedade cheia de pessoas atuando, diversos tipos de papeis. Por exemplo, eu atuava o papel de hétero e tentava ser a mais próxima possível do papel de mulher imposto. E como já disse, ficar fingindo cansa. Ser atriz/ator como profissão é uma coisa, ser atriz/ator por imposição é outra completamente diferente. Te afeta, faz mal. Ver que outras pessoas podem ser elas mesmas neste grande cenário, e muitas outras não. 

Acho que estou te entendendo melhor. Mas a próxima pergunta é, porque existe esta imposição de papeis? 
Então, ai que ta um grande questionamento, na minha opinião. Pra mim, tem haver com relação de poder. Dominar pessoas mesmo. Tipo como se eu pensasse assim "Não suporto ver alguém diferente de mim, não sei lidar com a diferença, então eu crio uma sociedade do jeito que quero". Imagina se eu penso "Vou fazer todo o possível para que as pessoas sejam bissexuais agora". Crio papeis, e imponho de uma maneira coercitiva as pessoas a atuarem. 

Me diga, como te convenceram a atuar o papel de hétero?
Ha, eu nasci em uma sociedade onde se impõe este papel e muitos outros, então não tem muito como não te convencerem a atuar. No mínimo nos primeiros anos de vida você vai seguir estes papel, até porque ele é um papel imposto, ensinado e esperado mesmo antes de você nascer. A questão é, quais as explicações e meios que a sociedade utiliza para que você não desista de atuar e passe a ser você. 

E quais são? 
Muitos, um exemplo clássico é a religião. Vou pegar o Deus do Cristianismo. Dizem que Deus vai te amar mais se você for aquela ideia, aquele personagem e que você esta cometendo pecado se não seguir. Ao mesmo tempo que dizem isto, dizem que foi este mesmo Deus quem criou tudo, quem nos criou e tal. Ai eu questiono este tal Deus. Se foi ele quem criou tudo isto, então ele é no minimo bizarro. Afinal, que Deus perverso é este que é capaz de criar uma parte da população que pode ser ela mesma e outra parte que tem que ficar fingindo ser do mesmo jeito da outra para que ele possa ser feliz? É como dizer, que ele cria pessoas pra sofrer e outras para serem felizes.
Eu fui por muito tempo, convencida que tinha que ser infeliz, para agradar um Deus que me criou pra ser infeliz, só pra felicidade dele.
Quando não é explicações religiosas, partem para explicações biológicas completamente sem nexos também.
Por exemplo. Dizem que ser hétero é normal porque só héteros procriam. Eu não sou hétero e quero ter filhos. Que parte biológica de mim deu errado né? Pior é quando misturam, religião, biologia e psicologia para te convencer a atuar. Por exemplo: ser hétero é natural (biológico), Deus fez homem e mulher para procriar e fugir disto é um comportamento aprendido, que foi ensinado errado. É tipo, oi? Esta junção de tudo, pra mim é muito o ponto que mais pega pra dizer que eu não posso ser eu, que tenho que fingir ser alguém mesmo. Negam o meu eu, para o bel prazer deles. Oras, se ser bissexual é um comportamento aprendido, vou ensinar héteros a ser então. 

Fora que estes argumentos um anulam o outro, nenhum se complementa. É aqui que lembro da relação de poder, porque estas mesmas pessoas que ficam cobrando que você exerça o papel, te coagem. Incentivam a violência física ou verbal. 

Você diz que ficar atuando deixa as pessoas infelizes, então você acredita que a pessoa só pode ser feliz sendo ela mesma?
Claro. Se não existisse papeis impostos, cada um seria você e todos seriam felizes, não existiria relação de poder, logo não existiria imposição. 

Como você acredita que estes papeis podem deixar de existir?
Sim, a longo prazo claro. Qualquer papel imposto é ameaçado a partir do primeiro que deixa de atua-lo, do  primeiro que se volta contra esta imposição e grita "A partir de hoje eu não atuarei mais, serei eu, me respeitem assim". É assim que se dá, na minha visão as lutas diárias. Temos que resistir a estes papeis. Nega-los, tomar nossas vidas e impor que as pessoas nos respeitem sendo nós mesmo.

Qual sua principal estratégia para conseguir deixar de seguir um papel?
O Primeiro passo para destruir um papel imposto a você é questiona-lo. Tipo começar a fazer entrevistas com você mesmo. Sempre que me impuserem algum papel e todos que impuseram até hoje, eu me pergunto. Sou eu ou eu atuando? Se a resposta for eu atuando, vou tentar ser eu a todo custo 









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