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Ser desobediente é ser livre

A primeira vez que tirei a camiseta na rua não foi por calor, alias naquele dias estava cerca de quatro graus. Tirei porque criei coragem suficiente para ser desobediente por completo, tirei pra causar a desordem na sociedade e retomar a ordem da minha vida. Pra assumir a mim mesma. Para declarar aos quatro ventos que eu tomei o poder sobre meu corpo, minha vida e minhas decisões, poder que nunca deveria ter sido tirado de mim, poder que nenhuma mulher deve sentir não ter.

A vida toda fui ensinada a ser obediente a ideia do que é ser uma mulher, consegui desobedecer por algum tempo na minha infância e adolescência a esta ideia em alguns aspectos, porem não todos que queria, sempre tive um pensamento, por algum motivo, de que eu deveria ser o "orgulho da família", talvez por rivalidade de irmãos eu queria ser vista assim.
Só que ser este "orgulho" por muitos anos eu o lia como ser aquela ideia de mulher e isto sempre bateu de frente comigo, porque eu nunca quis ser uma ideia, eu sempre quis ser eu e apenas eu.
 
Recusei as bonecas e ouvi que meninas devem brincar de bonecas porque devem ser boas mães quando crescem.
Recusei ter cabelos longos e ouvi que ter cabelos curtos é coisa de homem, mesmo que o corte curto fossem cortes considerados femininos.
Recusei sentar de perna fechada e ouvi "feche as penas, você é mocinha".
Recusei a falar baixinho e ouvi "Meninas são delicadas, fale mais baixo", "Fale mais baixo, falar alto não é coisa de mulher".
Recusei a limpar e cozinhar de maneira correta e ouvi, "Você deve aprender a cuidar de uma casa, porque você vai se casar um dia. Homem não casa com mulher relaxada."
Recusei a maquiagem, a depilação, pinças, brincos, pulseiras, vestidos e aos saltos altos e ouvi "Você deve se portar como uma mulher se não nenhum homem vai te querer."
Recusei a me portar como mulher e me tacharam de lésbica como se lésbicas não fossem mulheres.
 
Não podia recusar ser a ideia de mulher, porque me cobravam e esperavam que eu fosse, se não toda a ideia ao menos uma parte dela.
 
E uma parte eu fui.
Fui obediente a ideia da "mulher descente". Não usava roupas curtas. Comecei a namorar com 18 anos. Me mantive virgem porque deveria me casar com vestido branco. Não ficava com garotos na adolescência pra não ganhar fama de "puta"/"Vadia". Tirava boas notas no colégio. Não bebi até os 17 anos, porque mulher não bebê. Não ficava na rua até tarde sozinha. Não ia a festas.
Não conversava com minhas amigas sobre homens, porque eu devia esconder meus desejos sexuais... e não olhava fixamente as mulheres porque eu sabia que sentiria atração física e desejo por elas e isto não é coisa de mulher. 
Por anos eu cumprimentei minhas amigas e mulheres de maneira "masculina" simplesmente para evitar o contato com elas. Primeiro porque recusava a minha sexualidade e segundo porque acreditava de alguma maneira que a falta de conta com mulheres, pudesse me livrar dos boatos de que eu poderia ser lésbica, afinal a ideia da "mulher descente" não inclui ela gostar de mulheres e eu demorei muito a intender que eu sou Bissexual por conta da "ideia" (olha ela ai de novo)  de que pessoas bi são homossexuais não assumidos e eu definitivamente não me sentia homossexual.
 
Nunca me senti homem, nunca quis ser de fato homem, mas eu queria ter ao menos a um pouco da "ideia" do que é ser homem, a de ser Livre nas coisas que eu não podia ser. Ter o poder de escolha, de negar ser aquela ideia de mulher sem ser julgada, criticada ou vista como anormal, anti-natural ou o diabo a quatro.
 
Me privei de ser quem sou para que as pessoas ao me redor me vissem dentro de um "padrão aceitável", o padrão ao qual elas mesmos se enquadravam por vontade própria ou imposta como eu. Por medo de sofrer preconceito, por medo de não ser entendida, por medo de ser excluída, por medo me escondi no mundo deles, vivi no padrão deles.  
 
Tirar a blusa e ficar desnuda na frente de mais de mil pessoas, deixar fotografarem a minha atitude extremamente politica e libertaria, foi exatamente acabar com os medos que os olhares de reprovação causavam.  
No primeiro ano e escrevi no meu corpo "Machista, prove que estou errada", eu queria dizer: Prove que minha desobediência a sua ideia do que uma mulher não pode fazer, é uma desobediência a minha liberdade, a minha vida e principalmente a quem eu sou e quem me sinto ser.
No segundo ano da marcha escrevi: "Seu olhar opressor não fará eu me cobrir" pra confrontar aqueles que tentam me calar ou me fazer acatar a ideia do que é ser uma mulher nesta sociedade.
 
Tirei para me juntar as todas as não mulheres, a todas as desobedientes.

Tirei por orgulho a elas, e para ter orgulho de mim.
Tirei por todas as mulheres que são obedientes e infelizes assim.
Tirei por todas as mulheres que são obedientes e felizes assim.
 
Não sei se consigo definir de fato, a sensação de estar cometendo um crime e ao mesmo tempo estar feliz por desobedecer a ideia do que é ser mulher. O crime me refiro a tirar a blusa, no Brasil mulheres podem ser presas por isto.
 
Ontem, 17/02/2014 eu cometi mais uma desobediência que a vida toda quis cometer mas não tinha coragem,  por muitos motivos.
Primeiro, era difícil negar a ideia de uma aparência total não feminina, o meu cabelo mesmo que curto tinha que ser um corte considerado feminino. Segundo, porque eu demorei muito a aceitar e amar meus cachos, então me permiti me amar cacheada sim e por anos.
 
Ontem eu raspei a cabeça com o desejo de me sentir livre por completo da perseguição da ideia do que é ser mulher que tanto tento negar, porem para a minha surpresa quando me olhei no espelho e me vi, me senti tão feminina, que mal conseguia caber em mim esta sensação e ainda estou processando ela... Percebe que não disse mulher, mas sim feminina?
 
O Fato é que raspar a cabeça pra mim sempre foi algo muito do universo masculino, da ideia de homem e sempre enxerguei esta ideia bem mais livre do que a ideia que me empurraram. Estou de cabeça raspada, por uma desobediência minha a ideia que querem que eu siga.
 
Para resumir, estou me sentindo livre da cabeça aos pés!

Sigo Desobedecendo. 

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