Muitos sociólogos dão o
crédito por grande parte das conquistas femininas à pílula anticoncepcional,
que provocou a chamada revolução sexual e o conseqüente movimento feminista, no
começo da década de 1960. Mas poucos percebem que as formas de resistência da
mulher ao pensamento machista já existem muito antes disso, e passam por
conquistas caladas, como o progressivo direito ao trabalho fora de casa. Se as
vantagens do trabalho feminino ainda são relativizadas com os ‘deveres do lar’,
um grupo de mulheres do começo
do século XX – a partir
da década de 1930 em especial – deu o
exemplo de como enfrentar os preconceitos e assumir uma profissão.
Elas sempre objetivaram as mesmas garantias que os
homens, mesmo que para isso tenham lutado contra discriminações no próprio
ambiente de trabalho. Essas mulheres foram descobertas pela historiadora Lídia
Possas, da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista
(Unesp), de Marília. Com o objetivo de abordar o cotidiano das lutas
trabalhistas e sociais através da atuação das mulheres, Possas fez uma
investigação sobre a presença delas na estrada de ferro Noroeste do Brasil, em
Bauru (SP), entre 1918 e 1945. Assim, conseguiu revelar o universo feminino
oculto nesse ambiente predominantemente masculino. A historiadora entrevistou
cinco ex-funcionárias da estrada de ferro e comprovou, através da história
oral, o que havia descoberto em documentos sobre as 235 mulheres que
trabalharam na ferrovia àquela época. "Vindas de uma oligarquia agrária decadente
por causa da crise de 1929 e de uma classe média em formação nos centros
urbanos, essas mulheres viam o trabalho como um complemento para a renda
familiar, além de cumprir a alternativa ao casamento, até então a única saída
para mulheres de família", afirma Possas. Mas as dificuldades enfrentadas
pelas funcionárias foram várias. Os valores patriarcais da sociedade de então
eram muito fortes e elas não tinham chance de ascender a cargos hierárquicos
superiores, além de serem vítimas de vários tipos de discriminação no próprio
ambiente de trabalho.
Para ter acesso ao trabalho fora do lar, as mulheres
sevaleram de estratégias comuns da sociedade brasileira da época, reconhecidas
como masculinas. Possas descobriu que, em1918, muitas conseguiram o emprego na
ferrovia através de ’apadrinhamentos’ – indicações pessoais para trabalho. Os
cargos não eram muito visíveis e não tinham prestígio: elas trabalhavam como
escriturárias de primeiro nível, datilógrafas ou telefonistas. Ganhavam pouco e
trabalhavam muito, inclusive nos finais de semana e feriados.
Além do trabalho excessivo, tinham que lutar por
melhores condições no ambiente de Trabalho. Estas só foram surgir com o governo
de Getúlio Vargas, que, em 1934, estabeleceu o quadro de funcionários da
ferrovia. "Por que essas mulheres sempre defenderam Getúlio? Ele deu a
elas a chance de ter seus direitos e segurança legal, como concurso e outras
garantias", explica Possas. Mas se engana quem pensa que essas
funcionárias se dedicaram exclusivamente ao emprego. Entre as lutas por
direitos e melhorias no trabalho, havia o namoro disfarçado com os funcionários
da empresa – os poucos que aceitavam a condição de ’mulher trabalhadora’. Mesmo
assim, alguns ex-ferroviários entrevistados vêem essas mulheres até hoje como
’vagabundas’. Isso porque "mulher fora do lar era ’mulher pública’ e não
moça de família", explica a historiadora. "Esses homens não
conseguiam ver nelas apenas mulheres lutando por oportunidade de acesso ao
espaço público como qualquer cidadão. Diante disso, elas só podiam ser
enquadradas no universo das mulheres públicas", completa. Essa visão
hostil provocou uma restrição na sexualidade das funcionárias, que reprimiam
qualquer sinal de sua feminilidade. "Elas usavam roupas diferentes,
evitavam rir ou brincar para não dar abertura a outras interpretações. Uma
entrevistada que tinha lindas mãos, precisava limitar sua visibilidade diante
do receio de ser uma parte do corpo que despertasse uma forma de sedução",
exemplifica Possas. Sua pesquisa contribuiu para perceber a construção da
história das mulheres. "Elas reconstruíram suas histórias de vida e se
descobriram cidadãs", afirma.
Fonte: (Adaptado de ROMANO, Rachel Ruiz. Ciência Hoje On-line. Acessado em 5 jun. 2006.)
Achei muito bom este texto!
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